Sociedade

Ao contrário da HCB, EDM e CFM, a petrolífera estatal ENH oculta ganhos da administração

A Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) decidiu ocultar, no seu mais recente Relatório e Contas relativo ao exercício de 2025, os pormenores sobre os ordenados e regalias pagos aos seus cinco administradores. A decisão surge na sequência da vaga de contestação pública gerada no ano anterior devido aos salários milionários auferidos pela alta direcção da petrolífera estatal.

Segundo dados apurados e avançados pelo jornal A Carta, no documento financeiro de 2023 a ENH reportava que cada administrador recebia, em média, 32,5 milhões de Meticais por ano. Esse valor correspondia a cerca de 2,7 milhões de Meticais mensais por gestor, o equivalente a aproximadamente 42,2 mil dólares americanos.

Apesar da omissão deliberada sobre os vencimentos da equipa de gestão, o bolo geral das despesas com os trabalhadores da ENH voltou a crescer no país. De acordo com o documento referente ao exercício de 2025, a rubrica de remunerações do pessoal ascendeu a 1,161 mil milhões de Meticais, superando substancialmente os 999,4 milhões de Meticais registados no ano anterior.

Ao somar os encargos sociais, formação, assistência médica, ajudas de custo e alimentação, os custos totais com a força de trabalho atingiram 1,3 mil milhões de Meticais. A empresa justifica este incremento com a admissão de novos colaboradores e os custos associados, embora não especifique o número exato de novos quadros contratados.

Outra rubrica que desapareceu das demonstrações financeiras recentes foi a de benefícios de aquisição de viaturas. Nessa mesma rubrica, a petrolífera estatal tinha despendido mais de 63 milhões de Meticais no ano de 2023.

A falta de transparência da ENH relativamente às remunerações dos seus órgãos sociais contrasta fortemente com a postura de outras grandes empresas públicas moçambicanas. Empresas como a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), a Electricidade de Moçambique (EDM) e os Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) continuam a discriminar detalhadamente nos seus relatórios os valores pagos aos respectivos conselhos de administração.

No exercício de 2025, a HCB despendeu 210,5 milhões de Meticais em remunerações e subsídios à administração para um universo de 736 trabalhadores. Por sua vez, a EDM pagou 250,3 milhões de Meticais em encargos com a direcção para um total de 4.350 funcionários, enquanto os CFM mexeram 146,1 milhões de Meticais à sua administração num universo de 5.375 trabalhadores.

A revelação inicial dos salários milionários da ENH tinha gerado acesos debates na sociedade civil moçambicana. As duras críticas focam-se no desequilíbrio entre os altos vencimentos pagos numa empresa pública de um país onde a maioria da população vive abaixo da linha da pobreza e onde o salário mínimo na Função Pública ronda os 9 mil Meticais.

Imagem: DR

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