Sociedade

Um olhar sobre a “má gestão financeira” do professor

Passou mais um Dia do Professor em Moçambique e, como acontece todos os anos, voltaram a ser apresentadas as dificuldades que os docentes enfrentam nas suas vidas e que inevitavelmente impactam o exercício das suas funções. Gostaria de me juntar às vozes que se pronunciaram e reflectir sobre um tema que tem sido repetidamente mencionado: o endividamento desenfreado dos professores moçambicanos, ou a chamada “má gestão financeira”.

Em vários países do mundo, o número de professores que abandonam a carreira para se dedicarem a outras actividades tem vindo a crescer — mesmo em contextos onde os salários são relativamente melhores. Muitas vezes, esse abandono resulta dos desafios próprios da profissão e das múltiplas responsabilidades que um professor assume. Afinal, ser professor não começa nem termina na porta da sala de aula, e vai muito além de garantir que os alunos aprendam determinado conteúdo. Há tarefas e exigências para as quais muitos docentes não receberam preparação académica nem psicológica. Não surpreende, portanto, que muitos sintam que o valor que recebem pelo seu trabalho não compensa o esforço despendido.

Em Moçambique, a realidade docente é diversa. Nos últimos anos, temos visto a entrada de professores jovens, com ambições semelhantes às de outros jovens de diferentes áreas: casar, ter casa própria, possuir um meio de transporte e alcançar um mínimo de conforto que lhes permita pensar, planificar e executar as suas tarefas sem preocupações constantes com necessidades tão básicas como habitação, alimentação e transporte. Ser professor é uma profissão nobre, e seria justo que estes profissionais pudessem integrar a classe média moçambicana.

Num mundo cada vez mais capitalista, todos aspiramos a melhores condições de vida e empreendemos esforços para alcançá-las. Por consequência, muitos acabam por cair em situações de endividamento descontrolado — ou assim se acredita. Mas e se, em vez de tirarmos conclusões rápidas, fôssemos mais inteligentes? E se procurássemos ouvir estes profissionais, compreender as razões que os levaram a contrair dívidas ao ponto de, em alguns casos, receberem apenas 200 meticais no fim do mês? Não seria possível, a partir das suas respostas, traçar soluções mais eficazes e ajustadas à realidade?

Também se afirma que a nova tabela salarial melhorou os rendimentos dos professores. Mas já estudámos o impacto real dessa tabela na vida dos docentes, ou apenas olhamos para o impacto que ela tem nos cofres do Estado? Que relação se pode estabelecer entre a nova tabela salarial e o endividamento dos professores?

Há ainda outra questão que merece reflexão: o não cumprimento das promessas do Estado no pagamento das dívidas aos seus funcionários e nas espectativas criadas e posteriormente frustradas. Que impactos psicológicos, sociais e económicos essas promessas não cumpridas têm na vida do professor?

E, finalmente, é preciso pensar no efeito combinado entre a aspiração legítima de alcançar um nível mínimo de conforto, o peso das responsabilidades pessoais e familiares, e as promessas não cumpridas — factores que podem influenciar o endividamento exagerado e, consequentemente, afectar a qualidade da educação no País.

Talvez um passo importante para a mudança seja estudar as causas destes desafios a partir de uma perspectiva diferente — uma perspectiva que escute, compreenda e respeite a realidade dos professores moçambicanos.

 

Texto: Vitorino Macamo

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