Sociedade

Independência económica na era da Inteligência Artificial

Há uma pergunta que Moçambique talvez precise de começar a fazer com mais urgência: poderemos falar de verdadeira independência económica num país que possui recursos, território, energia e talento, mas depende de outros para produzir, processar e dominar o conhecimento que transforma esses recursos em valor?

A pergunta ganhou nova actualidade esta semana, na 2.ª edição do FUNDEC Economic Outlook, dedicado à competitividade empresarial e à transformação económica de Moçambique. Entre as matérias apresentadas esteve um estudo sobre o impacto da Inteligência Artificial na competitividade empresarial. À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma discussão sobre tecnologia. Não é.

A Inteligência Artificial está rapidamente a deixar de ser uma ferramenta reservada às empresas tecnológicas para se transformar numa infra-estrutura transversal da economia: influência, produtividade, logística, agricultura, indústria, finanças, saúde, educação, administração pública, comércio e gestão empresarial.

Por isso, a discussão sobre IA deve ultrapassar a pergunta sobre o que ela consegue fazer. A questão verdadeiramente estratégica é outra: quem vai controlar; produzir, adaptar e utilizar o conhecimento que está por detrás dela? E aqui que a lA encontra a agenda da independência económica.

Deixar de exportar apenas recursos

Durante décadas, o debate sobre desenvolvimento económico em África esteve associado à necessidade de transformar economias dependentes da exportação de matérias-primas em economias capazes de produzir maior valor acrescentado.

Moçambique conhece bem este dilema

Temos gás, carvão, minerais, terras agrícolas, recursos marinhos, potencial energético e uma localização geográfica privilegiada. Mas possuir recursos não significa, por si só, possuir capacidade económica.

A independência económica não se mede apenas por aquilo que temos debaixo do solo. Mede-se também pela capacidade de transformar aquilo que temos em conhecimento, tecnologia, produtos, serviços, empresas, empregos e valor acrescentado produzido internamente.

E é precisamente aqui que a Inteligência Artificial pode alterar as regras do jogo. Uma pequena empresa agrícola poderá utilizar sistemas inteligentes para prever procura, optimizar produção e reduzir desperdícios. Uma transportadora poderá optimizar rotas. Um banco poderá melhorar a avaliação de risco.

Uma indústria poderá reduzir perdas. O Estado poderá utilizar dados para melhorar a prestação de serviços e a afectação de recursos.

O estudo apresentado pela FUN-DEC parte precisamente desta perspectiva, tratando a IA não apenas como tecnologia, mas como uma nova infraestrutura de produtividade e competitividade económica. Mas há uma condição: ter acesso à tecnologia não é o mesmo que dominar a tecnologia.

O novo risco da dependência

Existe aqui um paradoxo. A Inteligência Artificial pode ajudar. Moçambique a reduzir determinadas dependências económicas. Mas pode também criar novas dependências, se o país se limitar a consumir soluções concebidas noutros lugares, utilizando dados produzidos localmente, sem desenvolver capacidade própria de conhecimento, adaptação e inovação.

A dependência económica do século XXI poderá não estar apenas no petróleo, no financiamento externo ou na importação de bens. Poderá estar também nos dados, nos algoritmos, nas plataformas e no conhecimento.

Quem possui os dados possui uma matéria-prima estratégica. Quem domina os modelos e as ferramentas possui capacidade de transformar essa matéria-prima em informação e decisão. E quem transforma informação em decisão mais rapidamente pode adquirir vantagens económicas significativas.

Isto coloca uma questão que merece debate nacional: Será que a independência económica de amanhã dependerá tanto da soberania sobre os recursos naturais como da soberania sobre os dados e o conhecimento?

A oportunidade moçambicana

Moçambique está, entretanto, a entrar neste debate num momento importante. O Governo iniciou em 2026 o processo de construção de uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, reconhecendo a IA como instrumento de inovação, produtividade, melhoria dos serviços públicos e dinamização económica

É igualmente de saudar a iniciativa governamental de colocar a governação de dados e a confiança digital no centro da agenda de competitividade empresarial, como recentemente destacado pelo INTIC no âmbito deste debate.

Trata-se de uma abordagem particularmente pertinente, porque, na economia digital, dados confiáveis, bem governados e utilizados com responsabilidade constituem activos económicos e factores de competitividade. É uma oportunidade que merece ser tratada com visão de longo prazo.

A legislação sobre Inteligência Artificial não deveria limitar-se a definir o que é permitido ou proibido. Deveria ajudar a responder a uma pergunta maior: como fazer com que a revolução da IA produza valor económico, conhecimento e oportunidades dentro de Moçambique?

Isso significa pensar em dados nacionais, investigação, universidades, empresas tecnológicas, formação de jovens, MPME, conectividade, cibersegurança, protecção de dados, ética e financiamento da inovação. E significa, sobretudo, evitar que a nova economia seja acessível apenas a uma pequena elite empresarial ou tecnológica

A independência também passa pelo conhecimento

Há uma razão para esta discussão ser económica. O FMI tem chamado atenção para o crescimento ainda moderado de Moçambique, para as limitações do financiamento e para a necessidade de diversificação e aumento da produtividade fora dos sectores extractivos.

Ora, é precisamente nesse terreno que a Inteligência Artificial pode tornar-se relevante. Se utilizada correctamente, poderia auxiliar uma economia com escassez de capital a utilizar melhor os seus recursos, uma empresa pequena a competir com empresas maiores; um agricultor a tomar decisões mais informadas, uma universidade a ampliar a sua capacidade de investigação, uma administração pública a conhecer melhor os cidadãos que serve.

Mas isso não acontecerá automaticamente. A tecnologia pode reduzir assimetrias, mas também pode ampliá-las. Pode democratizar o conhecimento ou concentrá-lo.

Pode aumentar a produtividade e criar novas oportunidades, mas também substituir determinadas tarefas e deixar trabalhadores sem as competências necessárias para a nova economia. E por isso que a questão central não deveria ser simplesmente “como adoptar a Inteligência Artificial?”

Deveria ser: “Como adoptar a Inteligência Artificial de modo a aumentar a capacidade económica de Moçambique e a distribuir mais amplamente os seus benefícios?”

Uma nova dimensão da independência

Talvez seja tempo de ampliar o próprio conceito de independência económica. No passado, discutíamos a capacidade de produzir aquilo que consumi-mos, financiar aquilo que investimos e exportar aquilo que produzimos.

No futuro, teremos também de discutir a capacidade de produzir e dominar o conhecimento que sustenta aquilo que produzimos. É neste ponto que a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a ser uma questão de desenvolvimento nacional.

A independência económica não significará fechar Moçambique ao mundo. Pelo contrário. Significará participar melhor no mundo: negociar melhor, produzir melhor; inovar mais, acrescentar mais valor e depender menos daquilo que podemos aprender a fazer

O verdadeiro desafio não será impedir a entrada da Inteligência Artificial em Moçambique. Será garantir que ela entre em Moçambique como instrumento de emancipação económica e não como uma nova forma de dependência.

E talvez esta seja uma das perguntas mais importantes que o debate económico nacional deveria começar a fazer. “Na economia da inteligência. Moçambique será apenas consumidor de tecnologia ou conseguirá tornar-se também produtor de conhecimento, soluções e valor?”

A resposta poderá dizer muito sobre a natureza da nossa independência económica nas próximas décadas.

 

Texto: Agostinho Vuma – presidente da FUNDEC

(Foto DR)

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