Cabo Delgado: Ofensiva militar dispersa insurgência e agrava pressão sobre civis

A insurgência na província de Cabo Delgado, na região Norte de Moçambique entrou numa nova fase, caracterizada por ataques mais dispersos, maior mobilidade dos grupos armados e crescente pressão sobre as populações civis.
A ofensiva lançada pelas forças moçambicanas e ruandesas contra o principal reduto insurgente alterou a dinâmica do conflito, mas também abriu novas frentes de violência, numa altura em que a crise humanitária se agrava e a Rússia volta a manifestar disponibilidade para apoiar militarmente Moçambique.
Segundo uma publicação da RFI, depois de vários meses de relativa contenção da actividade insurgente, Cabo Delgado assiste a uma nova escalada da violência. Os dados das Nações Unidas apontam para um aumento significativo dos ataques durante Junho, mas, mais do que o número de incidentes, preocupa a transformação da própria natureza do conflito.
Para o jornalista Tomás Queface, que acompanha a evolução da insurgência no terreno, “a segunda metade de 2026 inicia com a intensificação dos ataques”, num cenário que contrasta claramente com o primeiro semestre do ano, período em que os insurgentes se encontravam “muito contidos, particularmente nos distritos de Macomia e Quissanga”, reduzindo significativamente as acções contra civis.
A mudança coincide com a ofensiva desencadeada pelas forças moçambicanas, apoiadas por militares ruandeses, contra as florestas de Catupa, em Macomia, consideradas o principal santuário operacional da insurgência.
Segundo o jornalista, sempre que os grupos armados são pressionados naquele reduto repetem uma estratégia já observada desde o início da guerra: dispersam combatentes por diferentes zonas da província para obrigar as forças governamentais a dividir meios e efectivos. “Foi exactamente isso que aconteceu”, afirma. Desde o início de Julho, registaram-se movimentações para o sul e para o norte da província, alargando a presença insurgente a distritos como Ancuabe, Meluco, Montepuez, Muidumbe e Macomia.
A dispersão territorial trouxe igualmente uma alteração das tácticas. Ao contrário do que sucedia nos primeiros meses do ano, os insurgentes passaram a actuar sobre os principais corredores rodoviários, interrompendo a circulação, raptando passageiros e exigindo resgates. “Essa é uma das principais fontes de financiamento”, explica Tomás Queface, referindo-se aos ataques na EN380, principal eixo rodoviário da província, e na R98, entre Montepuez e Mueda.
Paralelamente, os grupos armados intensificaram a presença em zonas mineiras de Meluco e Montepuez, onde procuram controlar circuitos ligados à exploração de ouro e pedras preciosas, outra importante fonte de receitas da insurgência. A conjugação destes factores demonstra que, apesar da pressão militar, os insurgentes continuam a preservar capacidade logística e financeira.
Apesar da ofensiva governamental, Tomás Queface considera precipitado concluir que a insurgência esteja enfraquecida. “Eu poderia dizer que é uma adaptação”, sustenta.
Na sua leitura, não existem, até ao momento, indicadores que permitam avaliar os danos efectivos provocados pela operação militar nas estruturas do grupo. Pelo contrário, a rapidez com que os insurgentes redistribuíram efectivos por vários distritos sugere que continuam a possuir capacidade operacional significativa e um planeamento previamente preparado para responder a este tipo de ofensivas.
Mesmo que as forças governamentais consigam consolidar o controlo da floresta de Catupa, o jornalista admite que o resultado poderá não ser o fim da insurgência, mas apenas a deslocação das suas bases para outras áreas menos pressionadas.
Em paralelo com a evolução militar, Moscovo voltou a manifestar disponibilidade para apoiar Moçambique no combate ao terrorismo. A possibilidade é encarada com cepticismo. Tomás Queface recorda que a Rússia já tentou afirmar-se em Cabo Delgado através do Grupo Wagner, em 2019, experiência que terminou num fracasso, e lembra que promessas semelhantes voltaram a ser feitas em 2023, durante a visita do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov.
“Desta vez também não há qualquer indicação concreta de que esse apoio venha a materializar-se”, afirma. Na sua perspectiva, a forte presença de investimentos ocidentais ligados aos projectos de gás natural torna improvável uma intervenção militar russa.
“Acredito que nem a TotalEnergies nem a ExxonMobil aceitariam uma presença militar russa naquela província”, observa, acrescentando que a guerra na Ucrânia limita igualmente a capacidade operacional de Moscovo.
Ao mesmo tempo, o Governo moçambicano procura reforçar a autonomia das suas forças. Segundo Tomás Queface, o Presidente Daniel Chapo já manifestou a intenção de reduzir progressivamente a dependência das tropas ruandesas, numa estratégia que visa assegurar o controlo da província através das capacidades nacionais. Essa opção reflecte também a preocupação de evitar que Cabo Delgado se transforme num palco de disputa entre diferentes potências internacionais.
Enquanto prosseguem as operações militares, a situação humanitária continua a deteriorar-se. A redução da assistência alimentar por parte do Programa Mundial de Alimentação está a obrigar milhares de deslocados a regressar prematuramente às suas aldeias, apesar da persistência da insegurança.
Para Tomás Queface, trata-se de um desenvolvimento particularmente preocupante. “Isso pode deixar as populações vulneráveis aos grupos insurgentes, mas também permitir que certos jovens sejam recrutados com base em promessas de dinheiro”, alerta.
O jornalista observa ainda uma alteração no comportamento das populações: ao contrário dos anos anteriores, muitas famílias abandonam temporariamente as aldeias durante os ataques, regressando poucos dias depois por não encontrarem melhores condições nos centros de acolhimento.
Na avaliação de Tomás Queface, a resposta do Estado continua fortemente condicionada pela necessidade de proteger os grandes investimentos internacionais. “O Governo procura primeiro garantir protecção aos projectos de investimento internacional”, afirma.
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