Comissão de Gestão da LAM recusa entregar documentos à Justiça após exoneração de auditores

O clima de tensão na companhia de bandeira moçambicana atingiu um novo patamar após a Comissão de Gestão das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) ter recusado cumprir as ordens do Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC).
A desobediência às autoridades judiciais surge logo após a exoneração de quadros superiores que lideraram processos de fiscalização interna, num momento em que a frota de aviões recém-chegada continua em terra.
A sequência de acontecimentos acelerou após a realização de uma auditoria interna que expôs falhas de governação corporativa, falta de transparência em contratos de aluguer de aeronaves e irregularidades na compra de aviões em estado obsoleto. O Conselho de Administração — supervisionado pelos Presidentes do Conselho de Administração da EMOSE (Janfar Abdulai), HCB (Tomás Matola) e CFM (Agostinho Langa) — respondeu ao relatório com medidas disciplinares drásticas contra os responsáveis pela fiscalização.
Gisela Angela Gomes Mabota foi afastada do cargo de Directora de Auditoria Interna no final de Junho de 2026. Logo no dia seguinte, o Comandante Jorge Zandamela, que havia ordenado a realização da auditoria, foi igualmente exonerado das funções de Vogal para a Área Técnico-Operacional.
Paralelamente a estes afastamentos, o Gabinete Central de Combate à Corrupção deslocou-se às instalações da companhia estatal para recolher evidências. No entanto, a Comissão de Gestão recusou-se a entregar os documentos solicitados, incluindo os passaportes dos membros do Conselho de Administração, do CEO Dane Kondic e do vogal Lucas Francisco, além de contratos de trabalho e extratos bancários.
A crise institucional reflete-se directamente na operação técnica da empresa. A LAM anunciou oficialmente a 24 de Julho de 2026 que duas aeronaves Embraer E-190, adquiridas por 25 milhões de dólares americanos, já se encontravam em Maputo em condições técnicas de operar, mas com início de voos previsto apenas para as semanas seguintes.
Os dados apurados pela auditoria interna contradizem a versão da empresa em vários pontos estratégicos:
A companhia justificou que a permanência dos aviões na África do Sul durante mais de seis meses se deveu a trabalhos de pintura. Contudo, a auditoria revelou que os aviões apresentavam avarias graves nos motores e que o tempo médio internacional para a pintura de uma aeronave é de apenas 14 dias.
Apesar do investimento de 87 207,99 dólares na formação de pilotos para a frota Embraer, a imobilização prolongada dos aviões desde Dezembro de 2025 provocou a caducidade das licenças técnicas das tripulações. Esta situação exige agora novos custos de requalificação antes que as aeronaves possam obter autorização para voar.
Enquanto as disputas administrativas e judiciais prosseguem, o serviço prestado aos passageiros continua em degradação. A taxa de pontualidade da LAM fixa-se actualmente nos 53%, muito distante do padrão internacional de 85% exigido no setor da aviação comercial.
Os sucessivos cancelamentos e atrasos estão a afectar a economia nacional, o turismo e até eventos desportivos de dimensão nacional. Em simultâneo, a LAM continua a operar sob o dispendioso modelo de aluguer de aviões em regime ACMI e acumula dívidas não liquidadas com fornecedores estratégicos de restauração e serviços em terra, sem que sejam conhecidos planos públicos para a amortização do passivo.
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