Agências de viagens em Moçambique sob suspeita de branquear 58 mil milhões de meticais

O Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) lançou um alerta que está a agitar o sector económico nacional. No seu mais recente Relatório de Análise Estratégica, dedicado à utilização de agências de viagens e turismo para o branqueamento de capitais e exportação ilícita de capitais, a instituição revelou dados alarmantes.
Entre Janeiro de 2022 e Setembro de 2025, várias agências do sector movimentaram cerca de 58,3 mil milhões de meticais em transacções suspeitas através de transferências para contas de uma organização internacional.
Os moldes e as circunstâncias destas operações levantaram fortes suspeitas de crimes como o branqueamento de capitais e a exportação ilícita de divisas. A revelação acaba por expor a grande vulnerabilidade de um sector que muitos tradicionalmente consideravam de baixo risco no contexto nacional.
Para Samir Zacarias, especialista em Compliance, Prevenção e Combate ao Branqueamento de Capitais e Financiamento do Terrorismo, a publicação regular destes relatórios é um marco inquestionável na produção de inteligência estratégica financeira em Moçambique. O especialista defende que estes documentos não são meros papéis técnicos, mas sim instrumentos cruciais que trazem benefícios claros para a protecção da economia nacional, ajudando a travar a fraude fiscal e a evasão tributária que retiram receitas essenciais ao Estado.
Na visão de Samir Zacarias, a existência de análises periódicas fortalece a reputação internacional de Moçambique, mostrando aos investidores estrangeiros, parceiros de desenvolvimento e bancos correspondentes que o país está comprometido em implementar as melhores práticas globais de combate ao crime financeiro. Além disso, o especialista sublinha que os relatórios capacitam os bancos, a sociedade civil e as autoridades de aplicação da lei a aperfeiçoarem os seus sistemas de monitorização contra tácticas sofisticadas.
Zacarias destaca que os Relatórios de Análise Estratégica representam muito mais do que simples documentos técnicos, pois constituem autênticos instrumentos de inteligência financeira, prevenção criminal, educação pública e fortalecimento institucional. Para o especialista, a continuidade deste trabalho vai reflectir-se numa maior transparência, atracção de investimentos e no desenvolvimento sustentável do país.
O GIFiM tem vindo a alargar o seu campo de visão desde 2023, demonstrando uma maturidade institucional crescente para identificar riscos emergentes em várias frentes. Nos últimos anos, os relatórios estratégicos cobriram fenómenos complexos e de grande impacto social no país.
A instituição começou por analisar o branqueamento de capitais baseado no comércio em 2023, avançando em 2024 para a investigação do circuito financeiro que sustenta os crimes de raptos e sequestros no território nacional. Já em 2025, a atenção virou-se para temas altamente tecnológicos e sensíveis, nomeadamente o uso de criptomoedas para fraude fiscal e as redes de financiamento do terrorismo em Moçambique, culminando agora na recente investigação sobre o sector do turismo.
Com estes dados estratégicos disponíveis, o desafio passa agora para as autoridades de investigação criminal e para os reguladores, que têm a missão de usar esta inteligência financeira para travar as ameaças à economia formal e punir os infractores.




