“Chapo tem viajado constantemente e FMI e Banco Mundial não fazem caridade”, alerta Severino Ngoenha

O prestigiado filósofo moçambicano apela a uma profunda reflexão sobre o modelo de cooperação externa e defende que as soluções para os problemas do país devem ser desenhadas internamente.
Num debate que está a levantar acesas reflexões na sociedade civil, o filósofo Severino Ngoenha lançou duras críticas ao actual modelo de assistência financeira e cooperação internacional em Moçambique. Durante a sua intervenção nas vésperas da Independência Nacional, no Atelier Filosófico na Beira, realizado nesta quarta-feira, 24 de Junho, o académico questionou o paradoxo de o país continuar a receber elevados volumes de apoio externo enquanto a pobreza da população tende a agravar-se.
“Eu perguntei aos embaixadores: ‘como é que se faz que vocês dão-nos tanto dinheiro nos últimos 50 anos, mas vocês estão sempre mais ricos e nós mais pobres?’”, questionou Ngoenha, instando os moçambicanos a olharem criticamente para os resultados destas parcerias.
Para o pensador, a expectativa de que o desenvolvimento nacional venha por via de receitas de fora é irrealista. Ngoenha foi categórico ao afirmar que instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial nunca alavancaram o crescimento real de nenhuma nação.
“O Banco Mundial é um banco. E o banco não faz caridade”, sentenciou o filósofo, alertando que Moçambique continua excessivamente apegado à ideia de que a salvação económica virá do exterior.
Sem poupar a liderança política, Severino Ngoenha analisou também os primeiros 18 meses do actual ciclo de governação, apontando um excesso de diplomacia presidencial em detrimento da auscultação interna. De acordo com o académico, o Chefe de Estado tem viajado intensamente para o Ocidente e para outros pontos do continente, mas carece de sentar-se à mesa com as forças vivas da nação.
“O Presidente não se reuniu com os moçambicanos por sector, na agricultura, na construção pública, na educação…, e perguntar-lhes: ‘amigos, o que é que podemos fazer?’”, lamentou.
O filósofo concluiu a sua reflexão com um apelo à soberania intelectual e económica, sublinhando que quem vem de fora responde sempre a interesses e agendas próprias, cabendo apenas aos moçambicanos assumirem as rédeas do destino do país.



