Comunicado do SERNIC sobre viatura de jovem assassinado colide com documentos aduaneiros na posse de agente

Um rasto de graves contradições documentais coloca o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) sob uma forte pressão pública e questionamento ético. Em causa está o esclarecimento oficial emitido pela corporação, relativo à apreensão de uma viatura de marca Toyota, modelo Hilux D4D, com a chapa de inscrição CD-71GB-GP, que se encontrava ilegalmente na posse de um dos seus próprios agentes operacionais na província de Maputo.
A viatura em questão pertencia ao jovem Benjamim Zacarias Bié, que foi brutalmente assassinado, tendo o seu corpo sido encontrado sem vida nas margens do Rio Incomáti, no Distrito de Marracuene, no passado dia 28 de Abril de 2026. O carro, subtraído à vítima na data do crime, reapareceu dois meses depois a circular livremente pelas ruas, ostentando alterações na pintura para camuflar a sua origem e dificultar a identificação legal.
No seu comunicado de imprensa, emitido pela Direcção Provincial do SERNIC de Maputo sob o Processo-crime número 608/10-08/D/2026, a corporação alega que, em sede de interrogatório preliminar, o agente detido afirmou ter adquirido o automóvel de um cidadão identificado pelo nome de Timóteo Benjamim Bene. Segundo a narrativa oficial, o agente alegou que desconhecia por completo a proveniência ilícita do bem e que o utilizava para fins pessoais, até ao momento em que foi interpelado e desmascarado pelos próprios familiares do legítimo proprietário falecido.
No entanto, esta tese de comprador enganado levanta sérias dúvidas no seio da opinião pública. Sendo o arguido um agente da lei e membro de uma força de elite de investigação criminal, possuía o dever legal, técnico e profissional de verificar minuciosamente a idoneidade, o histórico e os registos alfandegários de qualquer bem de alto valor antes de proceder à compra. A aceitação passiva de um carro com matrícula estrangeira e adulterações visíveis na pintura existe como uma negligência grosseira que desmorona a tese de boa-fé.
Contrariamente à tese defendida de que o agente comprou o carro a uma terceira pessoa em solo nacional após o roubo, os documentos oficiais do Verbete de Despacho de Veículo, a Autorização de Saída Aduaneira da alfândega de Maputo e o Certificado de Matrícula do INATRO que tivemos acesso, contam uma história radicalmente diferente e comprometedora.
Nos referidos papéis do processo aduaneiro e de atribuição de matrícula AOV-432-MC, datados de Junho de 2026, quem consta formalmente como o importador legal que introduziu a viatura em Moçambique, a partir da República da África do Sul, é o próprio círculo associado ao agente e à firma de despacho aduaneiro registada.
Isto significa que, perante as alfândegas e as autoridades de trânsito, o processo de legalização não foi feito em nome de terceiros para depois ser vendido ao agente. O processo foi estruturado directamente para branquear o carro roubado em benefício do próprio utilizador ligado à corporação. A existência destes documentos prova que o agente não foi um mero comprador enganado no mercado informal, pois ele esteve activamente ligado ou facilitou o fluxo documental que tentou dar uma capa de legalidade a um veículo cujo dono legítimo havia sido assassinado em Abril.
Sobre a origem da aquisição, a versão do SERNIC diz que o agente alega ter comprado o veículo de boa-fé ao cidadão Timóteo Benjamim Bene sem saber do crime, mas a realidade dos documentos aponta o próprio agente ou envolvido directamente como o importador originário que legalizou a viatura vinda da África do Sul em Junho de 2026. Quanto ao estado da viatura, o comunicado reconhece que o carro tinha alterações na pintura susceptíveis de dificultar a sua identificação, um sinal de alerta que qualquer investigador criminal deveria ter detectado imediatamente antes de fazer qualquer negócio.
Segundo relatos, os familiares de Benjamim Zacarias Bié exigem agora que as investigações criminais sejam conduzidas com total isenção e transparência. O clamor público aponta para a necessidade urgente de apurar se existe uma rede mafiosa interna que envolve agentes da autoridade, despachantes aduaneiros e funcionários do INATRO para a falsificação de verbetes e branqueamento de viaturas roubadas associadas a assassinatos.
O SERNIC fechou o seu comunicado reafirmando a sua determinação no combate à criminalidade e prometendo responsabilizar criminalmente todos os envolvidos, mesmo que sejam membros do SERNIC. Contudo, enquanto as provas documentais gritarem mais alto do que as justificações oficiais, a credibilidade da instituição continuará sob forte escrutínio nas manchetes moçambicanas.




