Sociedade

Moçambique terá um acréscimo de 324 milhões de dólares no PIB se aproveitar a revolução da IA, indica estudo

A Inteligência Artificial (IA) poderá tornar a economia moçambicana cerca de 324 milhões de dólares maior ao fim de dez anos. Contudo, um importante novo estudo conclui que o acesso limitado à electricidade, a reduzida utilização da Internet e a elevada pobreza entre as pessoas empregadas constituem obstáculos sérios à capacidade dos jovens de beneficiar desta tecnologia.

O Índice Ayre, lançado na Reunião dos Chefes de Governo da Commonwealth, em Antígua e Barbuda, coloca Moçambique em 44.º lugar entre os 56 países da Commonwealth quanto à preparação dos jovens para a Inteligência Artificial (IA). O país obtém 38,9 pontos em 100, face ao limiar de preparação de 53 pontos, que apenas 15 países atingem ou ultrapassam.

Uma das conclusões mais marcantes do estudo do novo centro de investigação do filantropo antiguano-canadiano Calvin Ayre diz respeito às preocupações dos jovens moçambicanos com a privacidade digital.

Um inquérito internacional realizado em 2021 concluiu que 79,3% dos utilizadores moçambicanos da Internet com idades entre os 15 e os 29 anos estavam muito preocupados com a possibilidade de roubo dos seus dados pessoais ao utilizar a Internet ou as redes sociais — a percentagem mais elevada entre os 27 países da Commonwealth com dados comparáveis.

O Índice atribui também a Moçambique apenas 1,8 pontos em 10 no pilar de direitos, segurança e participação, sublinhando a importância da protecção digital à medida que o país procura alargar o acesso à inteligência artificial.

Os resultados mostram que muitos jovens moçambicanos enfrentam obstáculos muito antes de se colocar a questão de competências avançadas em IA.

Apenas 36,9% da população tem acesso à electricidade, cerca de metade dos jovens possui um telemóvel e somente 35% declararam utilizar a Internet.

O custo dos dados móveis em relação ao rendimento dos agregados familiares agrava estas dificuldades, indicando que políticas de IA que dependam de acesso regular à electricidade, a dispositivos e à Internet poderão não chegar a uma grande parte da população jovem do país.

O estudo revela ainda a reduzida presença dos jovens trabalhadores moçambicanos nas profissões mais susceptíveis de serem transformadas pela inteligência artificial.

Os dados analisados indicam que 80,5% dos jovens empregados vivem na pobreza, num contexto de emprego informal generalizado e de uma pequena proporção de pessoas entre os 25 e os 29 anos em profissões altamente qualificadas.

Os dados da Organização Internacional do Trabalho analisados no Livro Branco mostram que apenas 0,3% dos trabalhadores moçambicanos com idades entre os 15 e os 24 anos estão empregados nas duas categorias profissionais mais expostas à IA generativa, a percentagem conjunta mais baixa registada, a par da Serra Leoa.

Para Moçambique, a oportunidade económica mais imediata consiste em utilizar a IA para aumentar a produtividade, ajudar as pequenas empresas a crescer e melhorar os rendimentos dos trabalhadores, protegendo simultaneamente os jovens dos riscos de substituição de postos de trabalho pela tecnologia.

A oportunidade económica potencial identificada pelo estudo é significativa para Moçambique, que tem cerca de 9,7 milhões de jovens entre os 15 e os 29 anos.

Aplicando à economia do país cenários desenvolvidos pelo Fundo Monetário Internacional, os investigadores calculam que a IA poderá aumentar o nível do PIB moçambicano em 324 milhões de dólares ao fim de dez anos, no cenário moderado. A estimativa conservadora é de 156 milhões de dólares e sobe para 491 milhões de dólares no cenário optimista.

Moçambique está a tomar medidas para transformar a tecnologia em novas oportunidades de emprego e de negócio. Em outubro de 2026, o Governo inaugurou uma incubadora de empreendedorismo juvenil em Nampula, na sequência de centros semelhantes em Maputo e Pemba, para ajudar os jovens a desenvolver ideias de negócio e criar empresas sustentáveis.

No mesmo mês, o Ministério da Educação e Cultura anunciou o MAZA IA, uma iniciativa de educação em inteligência artificial desenvolvida pela MOZEDU e pela Vodacom Moçambique para apoiar alunos e professores.

Estas iniciativas vão ajudar a desenvolver competências práticas e a reforçar o empreendedorismo, embora o acesso à electricidade a preços acessíveis, a Internet fiável e melhores ligações entre a formação e o emprego continuem a ser essenciais para que mais jovens moçambicanos possam beneficiar da IA.

O Livro Branco identifica cinco prioridades: acesso económico e fiável à tecnologia; educação que desenvolva competências práticas; melhores percursos entre a formação, o emprego e o empreendedorismo; ferramentas de IA adaptadas às línguas e necessidades locais; e salvaguardas que permitam aos jovens questionar decisões automatizadas.

O documento apela aos governos, educadores e parceiros de desenvolvimento para que compreendam melhor os obstáculos específicos enfrentados pelos jovens em cada país, antes de decidirem onde o investimento poderá ter maior impacto.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo