Sociedade

Famílias procuram escolas privadas por “capacidade financeira” e não por falhas do ensino público, diz Benvinda Levi

A Primeira-Ministra de Moçambique, Maria Benvinda Levi, defendeu recentemente que a opção de muitas famílias pelo ensino privado no país resulta, em grande medida, do poder de compra e de “preferências pessoais”, e não necessariamente de uma falha de qualidade no sistema público de ensino.

Interpelada sobre a fuga constante de estudantes para a rede privada e para o estrangeiro, a governante argumentou que a coexistência dos dois sectores é natural e até necessária.

“Quem tem mais recursos também tem opções e pode optar por pôr a criança ou no sistema público, ou no sistema privado, ou até fora do país. Penso que isto não deve ser um problema como tal (…). Isso acontece aqui e acontece em qualquer país do mundo, não é uma coisa específica de Moçambique”, afirmou Benvinda Levi.

A Complementaridade do Sector Privado e o Desafio da Qualidade

A chefe do Governo destacou que o sector privado desempenha um papel fulcral no país, uma vez que a rede estatal não teria capacidade para absorver a totalidade da população escolar. Segundo a governante, o foco do Executivo centra-se em capacitar os professores e dotar as instituições públicas de condições que as tornem competitivas.

“O que nós temos que fazer é capacitar cada vez mais as nossas instituições públicas para que sejam o mais atractivas possível, de forma a que os cidadãos optem por elas conscientemente de que lá vão encontrar a qualidade de serviço que procuram. O nosso desejo como Governo é trabalhar para que todas tenham o mesmo padrão”, sublinhou.

O Contraponto com a Realidade do Sector

Apesar do posicionamento oficial, analistas do sector da educação e dados do próprio Ministério da Educação e Cultura (MEC) traçam um quadro contrastante no terreno.

No que toca à motivação das famílias, enquanto o discurso oficial classifica a ida para o privado como uma opção baseada em recursos e preferência pessoal, a realidade mostra uma busca por alternativas face ao encerramento recorrente de turmas, falta de carteiras e salas sobrelotadas.

Relativamente à infra-estrutura, em vez de apenas tornar as escolas “mais atractivas” como defende o Governo, a constatação no terreno é de que milhares de alunos continuam a estudar debaixo de árvores ou sentados no chão por escassez de mobiliário.

Quanto ao corpo docente, apesar dos programas em curso para a capacitação de professores anunciados pelo Executivo, persiste um elevado rácio de alunos por professor e relatos frequentes de atrasos e não pagamento de horas extraordinárias.

Por fim, no que concerne à opção das elites, o Governo encara como uma decisão natural comum a vários países, mas a realidade evidencia que quase a totalidade dos quadros séniores e dirigentes políticos opta por escolas privadas ou internacionais para a educação dos seus próprios filhos.

Embora a Primeira-Ministra reconheça que persistem desafios no sector, o fosso entre os padrões do ensino privado e a degradação de infra-estruturas na rede pública continua a ser a principal razão apontada por pais e encarregados de educação que fazem esforços financeiros para retirar os filhos da rede estatal.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo