Sociedade

Investigação aponta possível envolvimento da Polícia na morte do activista Mano Shottas em Moçambique

Jornalista foi baleado durante uma transmissão em directo de protestos contra a poluição em Ressano Garcia, enquanto denúncias de despejo ilegal de minérios continuam na fronteira entre Moçambique e África do Sul.

Uma investigação publicada esta quinta-feira, 22 de Outubro, pela organização internacional de jornalismo investigativo Forbidden Stories aponta indícios do possível envolvimento das forças de segurança moçambicanas na morte de Albino Sibia, conhecido por Mano Shottas, um jovem blogger baleado durante uma manifestação em Ressano Garcia, província de Maputo, em Dezembro de 2024.

Segundo a publicação, que analisou imagens e gravações de áudio do incidente, o activista foi atingido por disparos enquanto transmitia em directo, através do Facebook, um protesto contra a circulação de camiões que transportam minério de crómio da África do Sul para o Porto de Maputo.

O incidente ocorreu a 12 de Dezembro de 2024, quando manifestantes bloquearam a estrada para contestar a passagem dos veículos pesados, alegadamente associados à contaminação ambiental na região fronteiriça. Nas imagens recuperadas pela investigação, são visíveis agentes posicionados na via, enquanto se ouvem disparos e o blogger relata a aproximação de gás lacrimogéneo.

Mano Shottas, de 30 anos e pai de família, conseguiu voltar a câmara para si depois de ser atingido, afirmando que tinha sido baleado. A sua morte foi confirmada horas depois.

A organização refere ainda que, apesar da gravidade do caso, não havia sido anunciada uma investigação pelas autoridades moçambicanas até à publicação do artigo. A 30 de Dezembro de 2024, o Centro para Democracia e Direitos Humanos apresentou uma queixa no tribunal administrativo, procurando responsabilizar civilmente o Estado pela morte do activista.

A investigação indica que os Ministérios da Justiça e do Interior não responderam às perguntas enviadas pela organização.

Denúncias de poluição continuam na fronteira

Além da morte de Mano Shottas, a investigação  denuncia a persistência de alegados despejos ilegais de resíduos minerais ao longo da fronteira entre Moçambique e África do Sul, sobretudo na região de Komatipoort, junto ao rio Komati.

Segundo a publicação, mais de mil camiões transportam diariamente crómio e outros minérios sul-africanos em direcção ao Porto de Maputo. Durante o percurso de regresso, alguns veículos descarregam resíduos minerais nas bermas das estradas, uma prática que poderá contribuir para a contaminação dos solos e dos cursos de água.

Moradores e denunciantes ouvidos pela organização afirmaram ter alertado as autoridades ambientais sul-africanas para os riscos associados à actividade. Alguns relataram ameaças de morte e intimidação, alegadamente destinadas a impedir novas denúncias.

O Departamento sul-africano de Florestas, Pescas e Ambiente confirmou à Forbidden Stories ter emitido directivas dirigidas a quatro empresas de transporte cujos camiões eram suspeitos de envolvimento no despejo ilegal de resíduos. Contudo, explicou que as investigações enfrentaram dificuldades devido à falta de provas suficientes.

Dados aduaneiros citados na reportagem indicam que, entre Janeiro de 2025 e Maio de 2026, foram exportados através do Porto de Maputo mais de 800 milhões de euros em crómio e ferrocrómio provenientes da África do Sul, correspondentes a cerca de 2,6 milhões de toneladas.

O crómio é uma matéria-prima utilizada, entre outros fins, na produção de aço inoxidável. No entanto, a sua exposição, dependendo da forma química e da concentração, pode representar riscos para a saúde humana e para o ambiente.

A investigação volta a colocar em evidência dois problemas que afectam a região: as preocupações com a protecção dos cidadãos que denunciam irregularidades e os impactos ambientais associados ao transporte internacional de minérios.

Imagem: DR

 

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