“A verdadeira tragédia [em Cabo Delgado] acontece tantas vezes devido à ganância das empresas e dos governos”, os bastidores de cinco anos de investigação

Numa entrevista exclusiva ao jornal português Sábado, o jornalista Alex Perry revela os bastidores da investigação de cinco anos sobre o massacre de Palma, em Moçambique, apontando culpas diretas à negligência da TotalEnergies e à ganância corporativa.
A 24 de março de 2021, o ataque terrorista a Palma, no norte de Moçambique, fez 1.402 mortos — incluindo trabalhadores da exploração de gás da multinacional TotalEnergies. Em entrevista, o jornalista e autor Alex Perry expõe como os avisos de segurança foram ignorados e como as corporações energéticas continuam a priorizar o lucro em detrimento de vidas humanas.
Quando foram descobertos vastos depósitos de gás natural em Palma, sabia-se que a região corria riscos extremos de infiltração e ataques por grupos extremistas, como o Al-Shabab. No entanto, os alertas foram ignorados pelas autoridades e pelas empresas presentes no local.
Segundo a investigação de Alex Perry, documentada no seu livro Vai Jorrar Sangue, o desastre humanitário revelou um padrão alarmante em que as empresas petrolíferas se isolam e focam estritamente na protecção dos seus activos e lucros, abandonando civis e subcontratados à sua própria sorte. Como sublinha o autor, “a verdadeira tragédia acontece tantas vezes devido à ganância das empresas e dos governos. Há uma relação inseparável entre a guerra, o petróleo e o sofrimento humano desde a sua génese.”
Explicando a origem da obra, Perry esclarece que o título Vai Jorrar Sangue é uma citação directa de um líder da jihad argelina, dita momentos antes de atacar uma instalação na Argélia. Para o investigador, a frase simboliza a inevitabilidade da violência na indústria fóssil quando esta é gerida através de uma visão puramente egoísta e extrativista.
Questionado sobre a possibilidade de existir uma indústria de extração eticamente responsável, o jornalista aponta os exemplos da Noruega ou do Botsuana na extração de diamantes, onde a gestão transparente e focada no bem-estar da população evitou a chamada “maldição dos recursos”. Para Perry, a tragédia em Moçambique não decorre da existência do gás em si, mas sim da forma predatória como o projecto foi gerido.
Um dos pontos mais críticos da investigação prende-se com a reacção da TotalEnergies e do seu CEO, Patrick Pouyanné. De acordo com o jornalista, a liderança da empresa evitou consistentemente reconhecer publicamente a morte de trabalhadores locais e civis nas suas intervenções oficiais, demonstrando um vazio de responsabilidade ética e jurídica que o autor tenta agora combater ao procurar transformar a sua informação num caso judicial.
O massacre de Palma espelha, em última análise, um problema sistémico global: o paradoxo de regiões riquíssimas em recursos energéticos cujas populações permanecem empobrecidas e vulneráveis à violência. A investigação de Alex Perry serve, assim, como um alerta urgente sobre a necessidade de responsabilizar as multinacionais perante os direitos humanos e a segurança local.
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