“A juventude africana já não se identifica com os nossos velhos discursos” — Joaquim Chissano

O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, reconheceu que os antigos movimentos de libertação da África Austral, actualmente no poder em vários países, cometeram erros ao longo dos anos, incluindo a intolerância para com vozes críticas e o enfraquecimento das instituições democráticas.
O discurso foi proferido por Chissano a 27 de Julho de 2025, em Pretória, África do Sul, durante uma conferência que reuniu antigos movimentos de libertação da região, e voltou a ser partilhado pelo jornalista e analista moçambicano Tomás Vieira Mário.
A intervenção ganha novo destaque no contexto das reflexões dos participantes da reunião da FRELIMO em Chimoio, sobretudo pelas referências feitas à governação, participação política e renovação dos partidos.
“Sim, muitas coisas que não podem ser negligenciadas foram realizadas. No entanto, camaradas, é fundamental que reconheçamos que, ao longo do tempo, cometemos erros”, afirmou Chissano.
Entre os problemas apontados, o antigo Chefe do Estado mencionou o enfraquecimento das instituições democráticas, o distanciamento entre os partidos e os cidadãos, a captura de recursos públicos por interesses privados e a intolerância para com vozes dissonantes.
“Em nome da unidade, silenciamos vozes críticas. Em nome da estabilidade, fechamos espaços para a renovação. Em nome da continuidade, não criamos espaços para a participação activa dos jovens e das mulheres nos processos de tomada de decisão”, declarou.
Chissano destacou igualmente a necessidade de os partidos políticos adaptarem-se às expectativas das novas gerações. Segundo o antigo Presidente, a juventude africana já não se identifica com os discursos tradicionais e exige respostas concretas para os seus problemas.
Entre as prioridades apontadas estão emprego, educação de qualidade, formação técnica e tecnológica e maior participação dos jovens nas decisões políticas.
O antigo estadista defendeu ainda uma transformação dos partidos através de maior transparência, boa governação e justiça social.
“Não podemos continuar a governar com os mesmos métodos antigos. Precisamos de novos quadros, de novas ideias e de uma nova forma de fazer política neste mundo de enormes mutações”, afirmou.
Chissano advertiu, por fim, que os interesses de grupos ou indivíduos não devem sobrepor-se aos interesses dos cidadãos.
As declarações, agora recuperadas por Tomás Vieira Mário, colocam novamente em debate questões como renovação política, governação, participação juvenil e espaço para vozes críticas dentro das estruturas partidárias.
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