Sociedade

O termómetro da economia empresarial acendeu o sinal AMARELO

Porque o Rating Empresarial e Financeiro revela que o maior desafio das empresas moçambicanas já não é apenas crescer, mas preservar capacidade de investir numa economia de confiança limitada.

Há indicadores económicos que medem o passado e há indicadores que antecipam o futuro. O Rating Empresarial e Financeiro (REF) da FUNDEC pertence claramente à segunda categoria. Mais do que uma pontuação estatística, constitui um verdadeiro diagnóstico da saúde financeira do tecido empresarial e da capacidade da economia transformar crédito, investimento e confiança em crescimento sustentável.

O resultado do primeiro trimestre de 2026 — 38,623 pontos, correspondente à classificação “B – Fraco” , não deve ser interpretado como um sinal de colapso económico. Também não deve ser subestimado como uma simples desaceleração conjuntural. Na minha leitura, este rating representa um alerta estratégico. Revela que a dinâmica empresarial moçambicana continua presa numa armadilha de baixo investimento, financiamento caro, confiança reduzida e limitada capacidade de acumulação de capital produtivo.

Em economia empresarial existe um princípio simples: as empresas não investem apenas quando existe procura. Investem quando acreditam que o futuro recompensa o risco. E é precisamente essa variável,  a confiança económica, que o REF mostra estar mais fragilizada.

I. O Problema Já Não É Apenas a Falta de Crédito. É a Falta de Profundidade Financeira

À primeira vista, os indicadores de crédito parecem transmitir uma mensagem relativamente equilibrada. O Índice de Crédito e o Crédito Relativo apresentam ambos um score estatístico de 0,49, enquanto o Índice de Qualidade do Crédito atinge  um score estatístico 0,64, demonstrando que o sistema bancário continua prudente e que a qualidade da carteira permanece relativamente saudável.

Todavia, uma leitura exclusivamente bancária seria insuficiente. O verdadeiro problema já não reside apenas na existência de crédito. Reside na sua profundidade económica.

Quando o financiamento permanece concentrado em poucos segmentos selectivos, exige garantias elevadas, apresenta custos financeiros expressivos e continua pouco acessível às Pequenas e Médias Empresas, o crédito deixa de desempenhar plenamente a sua função de acelerar a produtividade e transforma-se num mecanismo predominantemente conservador de preservação de risco.

Na prática, muitas empresas sobrevivem através do autofinanciamento, reinvestindo resultados limitados, adiando modernização dos processos produtivos e reduzindo investimentos de expansão. Este comportamento protege a liquidez no curto prazo, mas reduz a competitividade no médio prazo.

É exactamente este fenómeno que o REF evidencia.

II. A Confiança Económica Continua a Ser o Maior Bloqueio ao Crescimento Empresarial

Entre todos as componentes do Rating, considero particularmente preocupante o comportamento do Índice de Confiança Económica, cujo score estatístico é de apenas 0,28 constitui um dos principais factores responsáveis pela classificação global.

Na teoria económica, confiança não é um conceito abstracto. É um activo produtivo.

  • Empresas confiantes contratam trabalhadores, expandem a capacidade instalada, assumem financiamento, inovam e investem.
  • Empresas cautelosas adiam decisões, reduzem investimentos, preservam liquidez e aumentam a aversão ao risco.
  • É precisamente esta segunda realidade que hoje caracteriza grande parte do ambiente empresarial moçambicano.

A confiança empresarial depende menos dos discursos económicos e muito mais da previsibilidade institucional, da estabilidade regulatória, da velocidade dos pagamentos da factura do Estado junto a fornecedores, da transparência do procurement, do acesso ao financiamento e da percepção de oportunidades concretas de mercado.

Enquanto estas variáveis permanecerem frágeis, dificilmente o investimento privado ganhará a escala necessária para acelerar o crescimento económico.

III. O Maior Estrangulamento Continua a Ser o Custo do Capital

Outro aspecto que merece reflexão é o reduzido desempenho do indicador referente ao custo do financiamento, cujo score estatística permanece em apenas 0,16.

Em economia financeira existe uma relação directa entre custo do capital e produtividade.

Quanto maior for o custo de financiamento, menor tende a ser o investimento privado.

Empresas deixam de adquirir equipamentos, atrasam projectos de expansão, reduzem contratação e adiam processos de modernização produtiva.

Este fenómeno torna-se ainda mais preocupante quando analisado em simultâneo com a reduzida intensidade de capital, que regista igualmente um score estatístico de 0,18.

Na prática, o REF mostra que grande parte das empresas continua a operar com baixos níveis de mecanização, reduzida incorporação tecnológica e limitada capacidade de acumulação de activos produtivos.

Sem investimento em capital físico dificilmente haverá ganhos significativos de produtividade.

E sem produtividade não existe crescimento sustentável dos salários, da produção e nem da competitividade das empresas nacionais.

IV. Há Sinais Positivos, Mas Ainda Insuficientes Para Alterar a Trajectória da Economia Empresarial

Nem todas as conclusões do REF são negativas. O comportamento relativamente favorável da inflação demonstra maior estabilidade dos preços.

Da mesma forma, a capitalização bolsista, com score estatístico de 0,76, revela que o mercado de capitais continua a transmitir sinais positivos relativamente às empresas cotadas.

Todavia, importa reconhecer uma limitação importante. A Bolsa de Valores de Moçambique representa apenas uma pequena parcela do universo empresarial nacional e boa parte das operações são de transacção de títulos de dívida pública.

Portanto, o dinamismo observado nas empresas cotadas ainda não se traduz automaticamente numa melhoria das condições financeiras enfrentadas pela esmagadora maioria das PME.

Por isso, interpretar a evolução da bolsa como sinónimo da recuperação do tecido empresarial seria metodologicamente incorrecto

V. O Que Este Rating Nos Diz Sobre os Próximos Meses

Na minha avaliação, caso não ocorram alterações significativas nas condições de financiamento, no investimento privado e na confiança económica, o REF deverá permanecer durante o restante ano de 2026 numa faixa compreendida entre 38 e 42 pontos, mantendo a classificação “B”.

Isto significa que o ambiente empresarial continuará caracterizado por crescimento moderado, expansão cautelosa do crédito, investimento selectivo e reduzida capacidade de aceleração da actividade económica.

Os sectores mais resilientes deverão continuar a ser aqueles ligados à energia, logística, mineração, agricultura comercial, telecomunicações e serviços associados aos megaprojectos de Oil & Gas.

Por outro lado, empresas excessivamente dependentes do consumo interno, com baixa capitalização e reduzida capacidade de financiamento, continuarão mais vulneráveis às oscilações do mercado.

O primeiro trimestre de 2027 poderá representar um ponto de inflexão, sobretudo se coincidirem quatro factores estruturantes:

A consolidação da retoma do Mozambique LNG;

A eventual Decisão Final de Investimento da ExxonMobil;

Uma maior integração das empresas nacionais na cadeia de fornecimento dos megaprojectos; e

Um ambiente monetário progressivamente menos restritivo.

Se estes factores convergirem, o REF poderá aproximar-se da faixa dos 45 a 50 pontos, transitando da classificação “B” para um nível próximo de “BB”, sinalizando uma economia empresarial menos vulnerável e mais preparada para investir.

Caso contrário, permaneceremos presos num ciclo de baixo investimento, crescimento moderado e reduzida acumulação de capital.

VI. O Próximo Ciclo Económico Exige Uma Nova Arquitectura Financeira Empresarial

Na minha perspectiva, o principal mérito do Rating Empresarial e Financeiro não está apenas em medir o estado actual das empresas.

Está em mostrar onde devem concentrar-se as políticas públicas e as decisões do sector privado.

Moçambique precisa de evoluir de um modelo centrado exclusivamente no crédito bancário para um verdadeiro ecossistema integrado de financiamento empresarial. Isso implica desenvolver mecanismos de garantias parciais de crédito, instrumentos de partilha de risco, soluções de financiamento da cadeia de valor, fundos de desenvolvimento de fornecedores, maior utilização do mercado de capitais, emissão de dívida corporativa e instrumentos específicos para empresas inseridas nas cadeias produtivas dos megaprojectos.

Ao mesmo tempo, a política de conteúdo local deve deixar de dialogar apenas com a política industrial e passar igualmente a dialogar com a política financeira. Não basta criar oportunidades para as empresas nacionais, é indispensável assegurar que disponham de capital, garantias, certificações e capacidade de execução para transformar essas oportunidades em contratos sustentáveis.

VII. Mais do Que Um Rating, Um Convite à Acção

Enquanto economista, não vejo os 38,623 pontos do REF como um veredicto sobre o sector empresarial. Vejo-os como um diagnóstico que identifica, com clareza, as fragilidades estruturais que continuam a limitar a capacidade competitiva das empresas moçambicanas.

A economia nacional demonstra sinais de estabilidade, mas ainda não alcançou a profundidade financeira necessária para transformar estabilidade em crescimento acelerado. O crédito continua prudente, a inflação mais controlada e alguns segmentos do mercado de capitais revelam dinamismo. Contudo, a baixa confiança económica, o elevado custo do financiamento e a reduzida intensidade de capital continuam a restringir o investimento produtivo.

O verdadeiro desafio dos próximos meses não será apenas melhorar um indicador estatístico. Será construir um ambiente económico em que as empresas deixem de investir por necessidade e passem a investir por confiança. Quando isso acontecer, o Rating Empresarial e Financeiro deixará de ser apenas um retrato das limitações do presente para se tornar a evidência de uma economia mais sofisticada, resiliente e preparada para competir.

Texto: Clésio Foia – Economista

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