Governo quer tornar cabotagem nacional mais atractiva para investidores

O Governo pretende melhorar as condições de funcionamento da cabotagem nacional, com vista a tornar o transporte marítimo de mercadorias mais previsível, eficiente e atractivo para investidores, numa altura em que Moçambique procura reduzir a pressão sobre a rede rodoviária e aproveitar melhor a capacidade instalada nos seus portos.
A posição foi defendida pelo Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, durante o lançamento da Campanha de Promoção da Cabotagem Nacional, realizado na sexta-feira (2), em Maputo, pela Civitas Partners Group (CPG Shipping).
Segundo Matlombe, a expansão da cabotagem representa uma oportunidade para reduzir a dependência do transporte rodoviário, sobretudo perante as condições precárias de alguns troços da Estrada Nacional Número 1 (EN1), e, simultaneamente, melhorar a ligação entre diferentes regiões do país.
O governante destacou que a cabotagem já permite ligar oito províncias através de uma rede logística de cerca de 2.700 quilómetros, criando condições para que as empresas tenham uma alternativa ao transporte rodoviário e ao recurso ao transporte marítimo internacional.
“A cabotagem já resolve parte dos problemas que temos, sobretudo porque parte da Estrada Nacional Número 1 está em condições bastante precárias, particularmente no centro do país, para além de dar-nos previsibilidade e eficiência”, afirmou Matlombe.
Para o ministro, um dos principais desafios passa agora pela criação de mecanismos que permitam tratar a carga de cabotagem como carga nacional, evitando procedimentos e constrangimentos normalmente associados à carga internacional.
Matlombe defendeu, por isso, uma maior coordenação entre as diferentes entidades que operam nos portos nacionais, de modo a simplificar os procedimentos e reduzir a burocracia.
“Precisamos melhorar os serviços ao nível dos nossos portos e garantir uma coordenação institucional entre as diferentes entidades, para tratar a cabotagem não como mercadoria internacional, mas como nacional, de forma a estimular e desbloquear o processo”, explicou.
Mais navios e novas oportunidades
De acordo com o ministro, o crescimento da actividade já é visível. O sector passou de apenas um navio em operação no início do processo para oito actualmente, dos quais seis são operados pela CPG, reflectindo, segundo Matlombe, um aumento do interesse e da confiança dos operadores no potencial da cabotagem nacional.
O Governo estima igualmente que, desde o lançamento da iniciativa, em Abril do ano passado, a cabotagem tenha retirado das estradas cerca de 14 mil camiões, reduzindo a pressão sobre a rede rodoviária e, consequentemente, as necessidades de manutenção das estradas.
Para Matlombe, esta dinâmica não representa uma ameaça ao sector dos transportadores rodoviários, mas uma oportunidade de crescimento para toda a cadeia logística.
“Não há desafios para o sector dos camiões, porque eles vão continuar a fazer o seu trabalho. Ninguém tira negócio de ninguém. O volume de negócio até vai crescer e todos saem a ganhar”, garantiu.
Cabotagem pode fortalecer produção nacional
Além da redução da pressão sobre as estradas, o Governo vê na cabotagem uma ferramenta para dinamizar o mercado interno e aproximar zonas de produção dos principais centros de consumo.
Matlombe apontou o potencial agrícola de várias províncias, defendendo que uma rede de transporte marítimo mais eficiente poderá facilitar a circulação de produtos como arroz, tomate e outras mercadorias entre diferentes regiões. A aposta, por outro lado, poderá contribuir para reduzir a dependência das importações e criar novas oportunidades de emprego.
“Temos de maximizar todo o nosso potencial, sobretudo na agricultura, porque existem províncias com grande capacidade de produção. A cabotagem pode permitir levar produtos de uma província para outra”, afirmou.
Para o Governo, o desafio passa agora por transformar as infra-estruturas portuárias existentes e os investimentos em curso numa rede logística nacional mais integrada, capaz de responder não apenas às necessidades do trânsito regional, mas também às necessidades internas de Moçambique.
CPG aposta na cabotagem como “Estrada Nacional Número Zero”
A evolução da cabotagem já se reflecte no crescimento da operação da CPG, que passou de uma embarcação no início das operações regulares, em Abril de 2025, para uma frota de oito navios, dos quais seis são actualmente operados pela empresa.
Para Mónica Temporário, Directora Comercial da CPG, a campanha representa uma oportunidade para mostrar ao mercado o potencial deste modelo e consolidar o transporte marítimo como uma alternativa cada vez mais relevante para a circulação de mercadorias no país.
Neste contexto, a CPG defende uma mudança de paradigma na forma como Moçambique olha para o transporte de mercadorias, assumindo o mar como uma verdadeira “Estrada Nacional Número Zero”, capaz de ligar o Sul, Centro e Norte do país e complementar o transporte rodoviário.
“A cabotagem é uma oportunidade para optimizarmos a nossa logística nacional”, destacou Mónica Temporário, sublinhando que o crescimento da actividade poderá acompanhar o aumento da procura e dos investimentos nas diferentes regiões do país. A perspectiva é que uma maior utilização da via marítima permita aproveitar melhor a costa moçambicana, aumentar a previsibilidade logística e criar novas oportunidades para empresas e investidores.
Cabotagem poderá gerar novas oportunidades para mulheres na cadeia logística
Já Camila Castelo, representante da recém-criada Associação de Mulheres em Logística de Moçambique, congratulou a iniciativa, considerando que a promoção da cabotagem poderá gerar novas oportunidades para o empreendedorismo, o emprego e a participação das mulheres na cadeia logística nacional.
Para Castelo, o crescimento do sector poderá abrir espaço para uma maior presença feminina em diferentes áreas, incluindo transporte, operações portuárias e navegação, defendendo que é necessário criar condições para que mais mulheres ingressem e desenvolvam carreiras nesta indústria.
A entrevistada destacou ainda a importância de produzir dados sobre a participação feminina no sector, como forma de identificar desafios e orientar medidas que permitam uma maior inclusão das mulheres na logística moçambicana.




