Entrega do projecto da ExxonMobil à Saipem levanta receios de um monopólio silencioso em Moçambique

A eventual adjudicação do contrato de Engenharia, Compras e Construção (EPC) do projecto Rovuma LNG, liderado pela ExxonMobil, à companhia italiana Saipem, está a gerar uma onda de preocupações no sector energético nacional. Especialistas alertam que o país poderá estar prestes a enfrentar um cenário de “monopólio silencioso” na exploração de gás natural na Bacia do Rovuma.
De acordo com uma investigação avançada pelo jornal Evidências, a confirmação deste contrato colocará nas mãos de uma única empresa estrangeira a responsabilidade operacional de praticamente todos os megaprojectos de gás natural liquefeito (GNL) em Moçambique.
Actualmente, a Saipem já detém uma forte presença no xadrez energético moçambicano. No projecto Coral Sul FLNG, a empresa é a responsável pela execução da plataforma flutuante que já exporta gás no país. Já em relação ao Coral Norte FLNG, a firma está posicionada para liderar o desenvolvimento deste futuro projecto, desenhado como uma réplica da plataforma em operação. Adicionalmente, no Projecto da TotalEnergies, a companhia italiana lidera o consórcio em terra (onshore) no complexo de Afungi, em Cabo Delgado.
Se a ExxonMobil confirmar a entrega do Rovuma LNG à Saipem, a empresa passará a controlar, de forma quase absoluta, a cadeia de investimentos estruturais do maior ativo económico de Moçambique. Fontes do sector ouvidas pelo mesmo jornal sublinham que este nível de exposição a um único operador cria uma vulnerabilidade estratégica e financeira de proporções inéditas para o Estado moçambicano.
Os receios não se limitam à concentração de mercado, mas também à estabilidade da própria operadora. Em 2021, a Saipem enfrentou uma crise financeira severa, registando um prejuízo líquido acumulado de 2.467 milhões de euros, o que obrigou a uma profunda reestruturação e aumento de capital.
Para adensar o cenário de incerteza, está em curso um processo de fusão global entre a Saipem e a norueguesa Subsea7, previsto para ser concluído no segundo semestre de 2026. A criação desta nova gigante do offshore exigirá a integração de culturas empresariais e sistemas complexos, precisamente num período crucial para a retoma e aceleração das obras em Moçambique.
Outro ponto crítico reside no impacto directo sobre o Conteúdo Local (Local Content). Várias empresas moçambicanas de pequena e média dimensão já se encontravam posicionadas para integrar as cadeias de fornecimento de outros concorrentes do sector, como a Technip Energies, conhecida pelo seu histórico de capacitação técnica e integração de quadros nacionais.
Com a centralização das operações na Saipem, especialistas temem que as expectativas de dezenas de fornecedores locais saiam defraudadas. Para o empresariado nacional, a diferença entre ter um mercado competitivo ou um operador único pode ditar se Moçambique participará efetivamente da riqueza gerada pelo gás ou se continuará a ser apenas um espectador de investimentos bilionários.
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