Sociedade

Mais que um Mercado, um Parceiro: A Nova Estratégia para Moçambique

Há uma forma redutora de olhar para os mercados emergentes que continua a custar caro a quem nela insiste. Consiste em ver um país apenas como um conjunto de consumidores por conquistar ou de fornecedores por contratar, uma praça comercial onde se entra, se vende e, idealmente, se sai com margem. Moçambique tem sido, demasiadas vezes, observado através desta lente estreita. E, no entanto, poucos mercados oferecem hoje uma oportunidade tão genuína a quem estiver disposto a olhar mais fundo e a pensar mais longe.

Ao longo dos anos em que a APGB Boutique Consultancy tem acompanhado pequenas e médias empresas, empreendedores e organizações em mercados lusófonos, aprendemos uma lição que se repete com uma regularidade quase desconcertante, o potencial existe sempre, mas raramente está sozinho. Encontramos empresários com produtos de qualidade que não conseguem aceder a uma linha de crédito porque nunca tiveram contabilidade organizada. Encontramos negócios familiares sólidos que estagnam por falta de planeamento estratégico. Encontramos fornecedores competentes que perdem contratos com grandes grupos não por incapacidade técnica, mas por não conseguirem responder a exigências de escala, certificação ou prazos de pagamento. O talento não é o problema. O problema é o ecossistema que ainda não foi construído à sua volta.

Sobram talento e vontade, faltam alicerces

Os desafios que observamos no terreno são notavelmente consistentes: dificuldade de acesso a financiamento, escassez de formação em gestão, ausência de planeamento estratégico e uma ligação frágil aos mercados mais exigentes. Tomados isoladamente, parecem obstáculos técnicos. Vistos em conjunto, revelam algo mais estrutural, a ausência de uma infraestrutura de capacitação que permita que uma boa ideia se transforme numa empresa resiliente, e que uma empresa resiliente se transforme num parceiro de confiança.

É por isso que defendemos, com convicção, que a capacitação, a mentoria, a educação financeira e o desenvolvimento de competências não são acessórios bem-intencionados. São os fatores fundamentais de qualquer estratégia séria de crescimento sustentável das PME. Uma empresa que aprende a ler os seus próprios números toma melhores decisões. Um empresário que domina o planeamento estratégico negoceia em pé de igualdade. Uma organização que recebe mentoria estruturada comete menos erros dispendiosos e recupera mais depressa dos que comete. Estes não são benefícios abstractos, são vantagens competitivas mensuráveis que se acumulam ao longo do tempo.

A tentação da entrada fácil

Aqui reside um dos equívocos mais persistentes que observamos em multinacionais e grandes grupos empresariais quando entram num novo mercado. A energia inicial concentra-se quase toda na venda, na distribuição do produto, na captação de quota, na rapidez do retorno. É uma abordagem compreensível, mas profundamente míope. Quem entra apenas para vender perde a oportunidade mais valiosa que um mercado como o moçambicano oferece, a de criar impacto económico duradouro e, com ele, uma posição que nenhum concorrente conseguirá replicar facilmente.

A nossa tese é simples e, cremos, cada vez mais difícil de contestar: as pequenas e médias empresas moçambicanas não devem ser vistas apenas como fornecedores ou clientes. Devem ser encaradas como parceiros estratégicos para construir um mercado mais competitivo, resiliente e inclusivo. Esta não é uma afirmação de cariz moral, ainda que tenha mérito ético evidente. É, antes de mais, uma afirmação de bom senso económico.

A lógica económica de fortalecer quem está à volta

Pensemos numa cadeia de valor concreta. Uma empresa internacional que se instala em Moçambique depende de fornecedores locais de logística, de serviços, de matérias-primas ou de mão de obra qualificada. Se esses fornecedores forem frágeis, ou seja, financeiramente expostos, mal geridos e incapazes de garantir consistência, a empresa internacional herda essa fragilidade. Cada elo fraco da cadeia traduz-se em risco operacional, rupturas de fornecimento, falhas de qualidade, atrasos, custos de substituição. Investir no desenvolvimento desses fornecedores não é filantropia disfarçada. É gestão de risco inteligente.

Uma estratégia de entrada bem concebida deveria, por isso, incluir de raiz programas de desenvolvimento de fornecedores locais, formação de empresários, transferência de conhecimento e criação de capacidades. O resultado é sempre o mesmo, e é duplo, o fornecedor cresce e torna-se mais fiável, e a empresa-âncora ganha uma base de parceiros locais qualificados, dificilmente transferível para um concorrente. Fortalecer pequenas empresas significa, na prática, fortalecer as próprias cadeias de valor, elevar a qualidade dos parceiros, reduzir riscos e construir relações comerciais de longo prazo que resistem aos ciclos económicos.

Há ainda um efeito mais amplo, que escapa às folhas de cálculo trimestrais mas que determina o sucesso a uma década de distância. Quando as PME crescem, contratam. Quando contratam, aumentam o rendimento das famílias. Quando o rendimento das famílias sobe, dinamizam-se as economias locais, surgem novos consumidores, novos serviços, nova procura. E um mercado com mais rendimento disponível e mais empresas robustas torna-se, ele próprio, mais atrativo para investimento. Por outras palavras, quem investe no fortalecimento do tecido empresarial local está, em última análise, a melhorar as condições do mercado em que opera. O retorno regressa, multiplicado, a quem o semeou.

Repensar a responsabilidade social

Esta visão obriga-nos a repensar aquilo a que se chama responsabilidade social empresarial. Durante demasiado tempo, esta foi confinada a donativos pontuais, a patrocínios simbólicos ou a ações de visibilidade limitada. São gestos louváveis, mas raramente transformadores. A verdadeira responsabilidade social, a que produz mudança estrutural, traduz-se em investimento na educação empresarial e no fortalecimento do tecido económico local.

A diferença é qualitativa. Uma doação alivia um problema durante um trimestre. Um programa de formação de empresários, de educação financeira ou de mentoria capacita pessoas e organizações a resolverem os seus próprios problemas durante uma geração. A primeira gera gratidão, a segunda gera autonomia. E só a autonomia constrói parceiros à altura. As empresas que compreenderem esta distinção deixarão de ver a responsabilidade social como um custo a justificar perante accionistas e passarão a vê-la como aquilo que de facto é, um investimento na qualidade do próprio mercado.

Conhecimento, investimento e oportunidade

Na APGB Boutique Consultancy, partimos de uma convicção que orienta tudo o que fazemos, o crescimento económico acontece quando o conhecimento, o investimento e a oportunidade caminham lado a lado. Falta um destes elementos e o sistema bloqueia. Há oportunidade sem conhecimento, e desperdiça-se. Há conhecimento sem investimento, e estagna. Há investimento sem oportunidade, e dilui-se. É na intersecção dos três que se gera valor real e sustentável.

Não escrevemos isto para vender um serviço. Escrevemo-lo porque o testemunhamos repetidamente no terreno e porque acreditamos que é uma mensagem que decisores empresariais, investidores e responsáveis políticos beneficiaram em ouvir com mais frequência. Moçambique tem recursos, tem juventude, tem empreendedorismo e tem mercados por desenvolver. O que precisa é de parceiros que entendam que o desenvolvimento do ecossistema local não é uma despesa que se acrescenta ao plano de negócios, é o plano de negócios.

Entrar em Moçambique é também construir Moçambique

A quem pondera entrar em Moçambique, o convite é claro, adotem uma visão de longo prazo. Resistam à tentação da entrada fácil e do retorno imediato. Perguntem-se não apenas quanto podem vender, mas o que podem construir. Olhem para os empresários locais não como custos a minimizar, mas como ativos a desenvolver. Porque o verdadeiro retorno do investimento, neste como em qualquer mercado emergente, passa também pela criação de valor para as empresas locais, pela solidez dos parceiros, pela qualidade das cadeias de valor e pela maturidade do ecossistema que se ajuda a erguer.

As economias que prosperam não são as que extraem, são as que constroem. E as empresas que perduram não são as que conquistam mais depressa, mas as que constroem mais fundo.

Entrar em Moçambique não deve significar apenas conquistar um mercado, deve significar contribuir para construir um ecossistema empresarial mais forte, mais competitivo e mais preparado para o futuro.

 

Texto: Alice Santos – consultora e empreendedora

(Foto DR)

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