Sociedade

Moçambique precisa de 11 MM$ por ano para financiar o desenvolvimento – AfDB

Moçambique necessita de aproximadamente 11 mil milhões de dólares por ano para financiar os investimentos associados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à Agenda 2063 da União Africana, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), que coloca a mobilização de capital no centro da estratégia de transformação económica do País.

A estimativa, originalmente apresentada no Country Focus Report de 2024 e retomada na edição de 2026, constitui uma referência para avaliar a dimensão financeira das necessidades de infra-estruturas, produtividade, energia e desenvolvimento social.

No relatório mais recente, intitulado Country Focus Report 2026 – Mozambique: Mobilizing Mozambique’s Development Financing at Scale in a Fragmented World, o AfDB sustenta que o crescimento económico registado nos últimos anos não permitiu desenvolver, à escala necessária, a capacidade produtiva nem melhorar significativamente a distribuição dos benefícios económicos.

Citado pela revista Tempo, a instituição considera que a disponibilidade de recursos financeiros representa uma condição fundamental para alterar esta trajectória, mas sublinha que os resultados exigem reformas institucionais, melhoria da eficiência dos investimentos e maior participação do capital privado.

Na abertura do segundo capítulo, dedicado à mobilização de capital, o AfDB sintetiza a centralidade desta agenda numa afirmação particularmente expressiva: “Mobilizar capital em grande escala é um imperativo de crescimento e transformação.”

A formulação, traduzida do relatório, traduz a importância atribuída ao financiamento enquanto instrumento de expansão produtiva e transformação estrutural.

O Banco observa que Moçambique registou um crescimento real médio do PIB de aproximadamente 2,2% entre 2019 e 2025, desempenho insuficiente para produzir uma transformação económica sustentada, gerar emprego em escala adequada e reduzir as desigualdades.

A análise coloca, assim, duas dimensões em simultâneo: a necessidade de ampliar os recursos financeiros disponíveis e a capacidade de os converter em investimentos que aumentem a produtividade e o rendimento da população.

Os 11 mil milhões de dólares representam uma estimativa anual de necessidades de desenvolvimento de longo prazo, não um montante de financiamento já aprovado ou uma obrigação adicional integralmente imputável ao Orçamento do Estado.

As infra-estruturas constituem uma das componentes mais exigentes do financiamento do desenvolvimento.

Segundo os cálculos apresentados pelo AfDB, o país necessita de aproximadamente 6,4 mil milhões de dólares anuais para financiar investimentos no sector, mas enfrenta um défice estimado em 6,2 mil milhões de dólares.

Estes valores demonstram a dimensão da distância entre as necessidades identificadas e os recursos disponíveis, particularmente num contexto de restrições fiscais e de dificuldades de acesso a financiamento de longo prazo.

O Banco considera que as deficiências nas infra-estruturas de energia, transportes e logística continuam a limitar a competitividade empresarial, aumentar os custos de produção e reduzir a integração das actividades económicas nos mercados nacionais e regionais.

O diagnóstico adquire particular relevância quando confrontado com a posição geográfica de Moçambique e com a importância estratégica dos corredores de Maputo, Beira e Nacala.

No capítulo dedicado à mobilização de capital privado num contexto internacional fragmentado, a instituição destaca que estes corredores poderão contribuir para posicionar Moçambique como uma plataforma logística e comercial da África Austral, desde que acompanhados por modernização das infra-estruturas, digitalização aduaneira e maior eficiência operacional.

A análise considera igualmente que o desenvolvimento dos corredores logísticos pode facilitar a ligação entre países do interior do continente, centros de produção e mercados internacionais, ampliando oportunidades de investimento, comércio e industrialização.

Contudo, a execução destas infra-estruturas exige financiamentos de longo prazo e projectos suficientemente estruturados para atrair investidores.

Neste contexto, o AfDB identifica limitações relacionadas com a preparação técnica dos empreendimentos, a percepção de risco e a reduzida profundidade dos mercados financeiros nacionais, factores que dificultam o acesso ao capital mesmo quando os investimentos apresentam relevância económica.

A instituição defende o desenvolvimento de mecanismos de preparação de projectos, garantias financeiras e financiamento misto, combinando recursos concessionais com capital privado.

Mais financiamento na agricultura

O sector agrícola representa outra dimensão central do défice de financiamento identificado pelo AfDB. De acordo com o relatório, Moçambique afecta à agricultura entre 3% e 5% da despesa pública, percentagem inferior à referência de 10% estabelecida no quadro dos compromissos africanos de investimento no sector.

Esta diferença corresponde, segundo as estimativas retomadas pelo Banco, a necessidades adicionais de aproximadamente 300 milhões a 500 milhões de dólares por ano.

O financiamento destina-se a áreas fundamentais para a expansão da produtividade, incluindo irrigação, insumos agrícolas e desenvolvimento das cadeias de valor.

A instituição associa a reduzida produtividade agrícola à insuficiência de investimento, limitações de acesso ao crédito e fraca integração entre produção primária, transformação industrial e comercialização.

No diagnóstico sobre as dificuldades estruturais da economia, o AfDB identifica a baixa produtividade agrícola e as reduzidas ligações industriais como factores que continuam a limitar a transformação económica.

A análise evidencia que a expansão da produção agrícola exige condições materiais e financeiras capazes de assegurar regularidade produtiva, acesso aos mercados e maior geração de valor acrescentado.

Neste contexto, o desenvolvimento da irrigação, armazenamento, mecanização e transformação agro-industrial assume particular importância económica.

A melhoria das cadeias agrícolas poderá contribuir para reduzir perdas pós-colheita, ampliar o abastecimento da indústria nacional e melhorar os rendimentos dos produtores.

O AfDB recomenda, por isso, maior utilização de financiamento privado, instrumentos de partilha de riscos e investimentos em infra-estruturas produtivas que permitam integrar pequenos agricultores em cadeias de valor comercialmente sustentáveis.

A referência dos 10% corresponde a um compromisso de afectação orçamental ao sector agrícola, não a uma taxa de crescimento da agricultura ou a uma meta de produtividade.

 

(Foto DR)

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